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sábado, 25 de março de 2017

Dinamarca, Dinamarca



Desfazendo a utopia escandinava: nem tudo é tão ‘cool’ como parece
O jornalista britânico Michael Booth publica um livro intitulado The Almost Nearly Perfect People (Gente Quase Perfeita), que pretende desmontar o mito da utopia nórdica


Pelo mesmo motivo que subir em um avião da Norwegian Airlines dá mais confiança do que fazer o mesmo em outras companhias de baixo custo, acrescentar o adjetivo “nórdico” a qualquer coisa faz com que pareça, e se venda, melhor: estilo nórdico, design nórdico, sujeito nórdico. O jornalista britânico Michael Booth, como qualquer outro ocidental, estava ciente dessa boa reputação quase universal de todo o escandinavo, mas tinha mais conhecimento de causa que a média. Casado com uma dinamarquesa, viveu durante quase duas décadas no país da família de sua mulher, com o qual tem uma relação de amor e ódio – na qual o ódio pesa um pouquinho mais que o amor. Esse foi seu ponto de partida para escrever Almost Nearly Perfect People (Gente Quase Perfeita), um ensaio muito premiado e polêmico, um livro em que se propôs destruir com machadadas vikings “o mito da utopia escandinava”.

A blogueira Pernille Teisbaek, que publicou recentemente o livro 'Dress Scandinavian', para imitar o estilo das escandinavas Foto Instagram
Para isso fez uma ampla pesquisa de campo. Viajou pela Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia, se reuniu com antropólogos, filósofos, jornalistas e pescadores, torrou os genitais em uma sauna finlandesa, se inscreveu em um acampamento de canto coral para adultos – os dinamarqueses são doidos para cantar em corais – e bebeu muitas latas de cerveja gasosa demais.

MAIS INFORMAÇÕES
Durante alguns anos, Booth convenceu sua mulher e seus dois filhos a viverem no Reino Unido, mas voltaram para a Dinamarca há coisa de quatro anos, quando a febre nórdica havia alcançado seu pico. O sucesso de Stieg Larsson e Henning Mankel tinha aberto as portas do mercado editorial a qualquer autor de romance policial com domicílio fiscal ao norte da Alemanha. As séries The Killing, The Bridge e Borgen triunfavam na televisão. Lars von Trier e Thomas Vinterberg encontravam sucessores em Susanne Bier e Nicolas Winding Refn nos festivais de cinema. Arquitetos dinamarqueses como Bjarke Ingels eram requisitados para grandes obras internacionais, Olafur Eliasson iluminava a Turbine Hall da Tate Modern, Rene Redzepi, do restaurante Noma, de Copenhague, era coroado o melhor chef do mundo na capa da Time, Skype e Spotify se consolidavam e, claro IKEA e H&M uniformizavam nossas vidas. No final das contas, se alguém quer distinguir-se um pouco, sempre tem COS, &Other Stories ou Ganni. Este site mesmo nos alertou várias vezes que as escandinavas estão entre as mulheres mais estilosas do mundo.

 Meik Wiking, diretor do Instituto da Felicidade de Copenhague, assina Hygge. A Felicidade Nas Pequenas Coisas (foto da edição espanhola) Instagram/ @lunaresrubio

No tempo transcorrido, a febre nórdica não diminuiu o mínimo que fosse. Todos, absolutamente, todos os hits do pop norte-americano continuam sendo fabricados em estúdios da Suécia, pelas mãos de superprodutores como Max Martin. Além disso, no último inverno europeu ficaram na moda os livros sobre o hygge, o conceito dinamarquês de bem-estar à base de unir-se aos seres queridos e adotar pequenos gestos domésticos. The Book of Hygge: The Danish Art of Living Well (O Livro do Hygge: A Arte Dinamarquesa de Viver Bem), de Louisa Thomsen Brits. El Secreto de los Daneses, de Louisa Thomsen Brits e Meik Wiking, nada menos que o diretor do Instituto da Felicidade, de Copenhague, assina Hygge. O famoso hygge é um dos cavalos de batalha de Booth em Almost Nearly Perfect People, onde faz um retrato com humor, como um inglês cínico que não consegue entender a ingenuidade nórdica. Segundo Booth, a glorificação dos prazeres simples conduz à "satisfação autocomplacente, cômoda e pequeno burguesa" e atua como mordaça social. Além disso, tanta insistência no recolhimento em comunidade tem um aspecto xenófobo.

 Uma idílica imagem de Copenhague, a cidade mais feliz do mundo (segundo os rankings) Instagram/ @myscandinavianhom

O Antropólogo Jeppe Trolle Linnet concorda que "o hygge atua como veículo para o controle social, estabelece sua própria hierarquia de atitudes e resulta em uma estereotipação negativa dos grupos sociais percebidos como incapazes de criar hygge". Booth traduz isso assim: "A inferência consiste em que, como só os dinamarqueses conhecem realmente a maneira de passar um tempo huggelig, sentem pena dos pobres estrangeiros com seus pretensiosos coquetéis, com seus jantares onde se chega a discutir com veemência e com suas festas e planos sofisticados". Ele aprendeu, depois de ficar mal em dezenas de reuniões sociais (sua explicação do complicado calendário de feriados dinamarqueses também tem profundidade), que a zona de conforto dos nórdicos em uma festa passa pelo consenso: "Preferem se conter em grande medida a falar sobre a vida e o milagres de onde se comprou certa garrafa de vinho, o pouco que custou e se a que estão bebendo agora é melhor que a anterior".

Não, nem todo mundo pode se gabar de ter ‘hygge’ em sua casa Instagram/ @marzena.maridek

Na realidade, há um motivo pelo qual os países do Norte – Booth admite que usa "nórdicos" e "escandinavos" como sinônimos embora não sejam: tecnicamente nem os finlandeses nem os islandeses são "scandi" – costumam encabeçar as listas de países mais felizes do mundo. E não tem tanto a ver com as velas aromáticas e os bolos de açafrão feitos no forno de casa, mas com a democracia e o sistema tributário que produziu o milagre nórdico nos anos sessenta. Aí o autor passa a expor suas tendências neoliberais (reconhece que crescer na Inglaterra de Thatcher pode tê-lo estragado para sempre) quando afirma que, no seu entender, alargar tanto a base da classe média, mais a tendência cultural de "não se destacar", desativou a excelência e gerou trabalhadores pouco produtivos.

O país da família de sua mulher, acrescenta, tem um segredo mais obscuro que "o que fez o tio-avô Olof na guerra": sua dívida privada. "Os dinamarqueses devem, em média, 310% de sua renda anual, mais que o dobro do que devem os portugueses ou os espanhóis, e o quádruplo dos italianos", afirma o autor de Almost Nearly Perfect People. Ora, e isso com os laboriosos vikings.

 Capa da edição espanhola de Almost Nearly Perfect People, o ácido ensaio contra o mito nórdico Capitan Swin

Em sua viagens, Booth se dedica a olhar debaixo dos tapetes e apontar o isolacionismo norueguês que beira, segundo ele, o ultranacionalismo, o sisu finlandês (o espírito de resistência e virilidade, que, na realidade, ele traduz como machismo puro e duro) e o lagom sueco, a obsessão por ser moderado, razoável e modesto de tal modo que a mediocridade é a única coisa aceitável, assim como o racismo e o alcoolismo em diferentes partes da região. Claro, ele cruza com pessoas maravilhosas que o convidam para comer arenques e caranguejos e se detém em reconhecer os pequenos milagres da vida nórdica, como o fato de que (isto não é um mito) persigam você para entregar a sua carteira se ela cair ou que deixem os bebês nos terraços das cafeterias sem medo algum de que algo de ruim lhes aconteça. Almost Nearly Perfect People não evitará que a mídia do resto da Europa continue emitindo com periodicidade também nórdica reportagens sobre o modelo educacional finlandês ou publicando artigos sobre as invejáveis licenças paternidade dos suecos. Diante de tudo, o importante é não reagir a esse material, nem ao próprio livro de Booth, à maneira de Ana Rosa Qintana, que depois da transmissão de Salvados, em Helsinque, tuitou:

"Tremenda a educação na Finlândia, mas, e o frio e os suicídios, e não poder se sentar para comer uns petiscos e tomar umas cervejas?"

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Lamentável



Trump prometerá mais verbas para a defesa e menos para a saúde




  • 28/02/2017 11h52
  • Nova York
Radio France Internationale
O presidente norte-americano Donald Trump fará hoje (28) seu primeiro pronunciamento em sessão conjunta do Congresso. Ele deve anunciar o aumento do orçamento da Defesa, cortes de verba para a ajuda internacional e o meio ambiente. O anúncio mais esperado, porém, deverá ser a controversa revogação e substituição do Obamacare.

Trump deve se referir à reforma ao sistema de saúde conquistada pelo governo de Barack Obama como uma carga econômica que precisa ser minimizada para, segundo ele, salvar as famílias americanas do desastre do Obamacare.

A promessa de revogar e substituir a lei da saúde promulgada por Obama em 2010 é mais difícil de ser cumprida do que Trump esperava, conforme ele mesmo admitiu na véspera do pronunciamento. Apesar de o presidente dizer que ninguém está feliz com o Obamacare, governadores republicanos estão sofrendo pressão para não permitirem que Trump mexa no Medicaid, o programa de seguro federal-estadual para pessoas de baixa renda, que foi expandido em diversos estados. Essa questão, em particular, está causando uma rixa entre republicanos governadores e membros do Congresso.

Republicanos contra republicanos
O Congresso, controlado por republicanos, ainda não apresentou uma alternativa realista para o plano que oferece cobertura a 20 milhões de americanos. Na véspera do pronunciamento, Trump reuniu-se com governadores republicanos que temem a eliminação do Medicaid. Por outro lado, Paul Ryan, presidente da Câmara de Representantes, e Mitch McConnell, líder da maioria republicana no Senado, tentam convencer o presidente a declarar no pronunciamento seu apoio ao plano que deve ser proposto pelos congressistas republicanos.

O projeto do Partido Republicano, ainda não oficialmente divulgado, pode substituir os subsídios do Obamacare com créditos fiscais menos generosos, aumentar o valor que as seguradoras podem cobrar de idosos, além de eliminar o Medicaid para pessoas de baixa renda.

Americanos ansiosos
Trump sempre prometeu seguro de saúde muito melhor para todos os americanos, mas, nunca apresentou um plano detalhado. O presidente, até agora, fez discursos vagos, otimistas, mas sem conteúdo quando fala sobre seu plano de saúde.

O pronunciamento de Trump, hoje à noite, pode incluir surpresas, o que está causando estresse tanto para a população americana em geral quanto para os republicanos no Congresso que vivem em constante estado de incerteza em relação ao presidente, que nem sempre está em sintonia com o partido que representa.

Uma pesquisa recente da Kaiser Family Foundation indica que o apoio ao Obamacare vem aumentando, com 48% dos americanos tendo uma visão favorável da lei e 42% contra.

domingo, 27 de novembro de 2016

Interiorizar o atendimento médico

Voluntários levam centro cirúrgico a aldeias indígenas amazônicas



  • 27/11/2016 11h43
  • São Gabriel da Cachoeira (AM)
Aline Leal* - Repórter da Agência Brasil
Por cerca de uma semana, a população da Vila de Assunção do Içana, pertencente ao município de São Gabriel da Cachoeira (AM), no Alto do Rio Negro, pode contar com um centro cirúrgico, no meio da Floresta Amazônica. Distante cerca de três dias de barco da capital do Amazonas, Manaus, e acessível apenas em períodos de cheia do Rio Içana, a aldeia recebeu esta semana os Expedicionários da Saúde, uma organização sem fins lucrativos que leva atendimento médico especializado para a população indígena.

O atendimento é feito por médicos voluntários que, três vezes ao ano, escolhem uma região do estado para fazer o mutirão. Cirurgias como catarata, hérnia, tracoma, e outros procedimentos cirúrgicos, ginecológicos e pediátricos chegam aos indígenas em centros cirúrgicos móveis, que totalizam cerca de 15 toneladas de equipamentos. Voltada a 36 mil índios aldeados na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, a ação conta com 45 médicos voluntários, que atuam em hospitais de referência como Albert Einstein e Sírio Libanês, em São Paulo.

“É difícil ir para Manaus. A gente não consegue, tem que deixar a família, fica lá largado até poder voltar. É bom demais poder fazer essa cirurgia aqui”, disse Divinória Gaudi, de 42 anos, da etnia Baniwa, que fez cirurgia de catarata. “Eu tive um pouco de medo antes da cirurgia, porque nós que moramos aqui não temos costume desse tipo de coisa, mas não doeu e já estou bem.”

Os moradores da região precisam esperar a cheia do rio para se deslocarem até Manaus, cidade mais próxima onde há centros cirúrgicos. Quando o problema é mais grave, eles são transportados por aviões da Força Aérea Brasileira, que atua no local e faz o transporte às quartas-feiras e aos domingos usando uma estrada de terra precária para pousos e decolagens. "Quando vem um ajuda dessa, a gente tem que aproveitar bem", disse o cacique tariano, Gracindo Almeida.

Saiba Mais
Antes da chegada dos cirurgiões, profissionais de saúde do Distrito Sanitário Indígena do Alto Rio Negro fizeram uma primeira triagem dos habitantes que poderiam precisar de procedimentos cirúrgicos. Em seguida, os médicos fizeram uma análise especializada.

O mutirão teve início no dia 18. Balanço parcial (até o dia 22) mostra que foram feitos 770 atendimentos e 164 cirurgias. Além disso, os expedicionários também distribuem óculos de grau entre os que precisam.

O médico ortopedista Ricardo Ferreira, um dos fundadores da organização, conta que o movimento foi idealizado depois de um passeio de amigos pelo Pico da Neblina. “Nesse passeio vimos tantas necessidades, tanta miséria, que decidimos fazer algo”, relembrou. Além do trabalho voluntário dos médicos, o grupo também consegue doações de equipamentos e medicamentos de grandes empresas. “É tudo doação. O governo entra com a logística, ajudando na triagem, no transporte, na comida e em algumas instalações locais”, afirmou Ferreira. A Expedicionários da Saúde já existe há treze anos e ao todo já foram feitas 36 expedições.

Na última quarta-feira (23), o ministro da Saúde, Ricardo Barros, visitou as instalações da organização. Segundo Barros, até maio de 2017, o ministério deve ter reuniões com lideranças indígenas para elaboração de um novo plano de atenção à saúde indígena que ambém ajude a melhorar a situação dos que vivem em aldeias isoladas. “A atuação profissional nesses locais é um desafio que temos que resolver juntos [União, estados e municípios], encontrar uma forma de levar atenção à saúde indígena."


*A repórter esteve na Vila de Assunção do Içana a convite do Ministério da Saúde
Edição: Lílian Beraldo